Fundadora
Quando Deus me chamou de Preciosa
Quem eu pensava ser
Durante muito tempo, carreguei a sensação de que havia algo errado comigo.
Não era uma dor que eu sabia explicar, nem um pensamento que conseguia colocar em palavras. Era apenas a impressão constante de que eu precisava ser diferente para finalmente me sentir suficiente. Cresci acreditando que, se fosse mais bonita, mais magra, mais confiante ou mais parecida com as outras meninas, talvez encontrasse o lugar onde me sentiria aceita. Durante anos, essa busca pareceu tão natural que eu nunca parei para questioná-la. Apenas continuei tentando me encaixar.
Hoje entendo que nenhuma mulher nasce acreditando que não tem valor. Aos poucos, aprendemos a enxergar a nós mesmas pelos olhos das pessoas. As palavras que ouvimos, as comparações que fazemos e as expectativas que carregamos vão moldando, quase sem percebermos, a forma como construímos nossa identidade. Comigo não foi diferente. O bullying que vivi durante a infância, os comentários sobre meu corpo e a sensação constante de ser diferente foram mudando a maneira como eu me enxergava. Sem perceber, passei a olhar para o espelho usando os olhos das pessoas ao meu redor.
Foi assim que comecei a procurar meu valor naquilo que via refletido no espelho. Passei a rejeitar meu corpo, meu rosto, meus cabelos e tudo aquilo que um dia alguém transformou em motivo de comparação. Quanto mais tentava encontrar beleza em mim, mais parecia enxergar apenas defeitos. E, quando olhava para outras mulheres, imaginava como seria viver a vida delas, porque a minha nunca parecia suficiente.
Anos mais tarde, em 2002, conheci Jesus e, dois anos depois, fui batizada. Foi o início de uma nova caminhada. Pela primeira vez experimentei a esperança de que Deus poderia restaurar áreas da minha vida que eu acreditava não terem mais solução. Eu ainda não compreendia plenamente quem era, mas começava a acreditar que talvez existisse uma resposta além daquilo que eu enxergava em mim mesma.
Foi justamente nesse período que enfrentei uma das fases mais difíceis da minha vida. Enquanto cursava Farmácia, comecei a perder boa parte dos meus cabelos. No início imaginei que fosse apenas algo passageiro, mas, à medida que os fios continuavam caindo, a vergonha foi ocupando um espaço cada vez maior dentro de mim. Eu quase perdi um ano da faculdade porque já não tinha vontade de sair de casa. Quando precisava sair, usava boné. Quando não usava, tinha a impressão de que todos olhavam exatamente para aquilo que eu mais queria esconder.
Naquela época, costumava dizer que me sentia como um quadro sem moldura. Durante muito tempo achei que essa frase descrevia apenas a forma como eu via minha aparência. Hoje percebo que ela revelava algo muito mais profundo. Eu não estava perdendo apenas os cabelos. Aos poucos, estava perdendo a capacidade de reconhecer quem Deus havia me criado para ser.
Minha formação como farmacêutica despertou em mim o desejo de entender o que estava acontecendo. Passei meses estudando, pesquisando e observando meu próprio corpo, até receber o diagnóstico de Síndrome dos Ovários Policísticos. Finalmente havia uma explicação para os sintomas que eu enfrentava. Meu corpo fazia sentido para a medicina, mas minha alma continuava procurando respostas. Talvez esse tenha sido o momento em que comecei, de fato, a me esconder. Não porque tivesse deixado de amar a Deus ou perdido a fé, mas porque já não conseguia olhar para mim sem enxergar apenas aquilo que acreditava estar quebrado. Quanto mais o tempo passava, mais distante eu me sentia da mulher que Deus havia criado para ser.
Quem Deus disse que eu sou
Naquele momento, eu ainda não fazia ideia de que Deus estava prestes a mudar completamente a forma como eu enxergava a mim mesma.
Era a virada para 2009. Como em tantos outros anos, toda a família estava reunida na casa da minha avó para celebrar a chegada de um novo ano. Em determinado momento, resolvi me afastar da festa e caminhei até a casa da minha tia, que ficava no mesmo quintal. Eu queria apenas alguns minutos de silêncio. Foi ali que meus olhos encontraram uma Bíblia sobre a mesa. Não havia um motivo especial para abri-la. Apenas a peguei e a abri.
Ela estava em Provérbios 31.
À medida que lia aquele capítulo, tive a sensação de que Deus estava falando diretamente às partes da minha história que eu havia tentado esconder durante tantos anos. Cada versículo parecia alcançar uma ferida diferente do meu coração e reconstruir, pouco a pouco, a forma como eu me enxergava.
Foi como se, pela primeira vez, Deus me chamasse de Preciosa.
Naquele instante, compreendi que meu valor nunca esteve na aparência, na aprovação das pessoas ou naquilo que eu era capaz de fazer. Pela primeira vez, comecei a enxergar a mulher que Deus sempre viu quando olhava para mim.
Adormeci com a Bíblia aberta. Enquanto dormia, Deus me deu uma visão e me mostrou que deveria buscar uma igreja, porque ali começaria uma nova fase da minha caminhada. Quando acordei, os fogos anunciavam a chegada de um novo ano, mas a maior mudança não estava do lado de fora. Ela havia acontecido dentro de mim.
No primeiro domingo daquele ano, entrei na igreja carregando muito mais perguntas do que respostas. Eu ainda não entendia tudo o que havia acontecido naquela noite, mas havia uma certeza que não me abandonava: Deus tinha começado algo novo em minha vida. As circunstâncias continuavam exatamente as mesmas. Eu ainda enfrentava a alopecia, ainda convivia com inseguranças construídas ao longo de muitos anos e ainda estava aprendendo a lidar com as limitações do meu próprio corpo. Nada disso havia desaparecido de uma hora para outra. A diferença é que aquelas dores já não definiam quem eu era. Elas continuavam fazendo parte da minha história, mas deixaram de determinar a forma como eu me enxergava.
Com o passar do tempo, percebi que aquilo que Deus faz em nosso coração nunca permanece apenas em nós. Enquanto restaurava minha identidade, Ele também despertava em mim o desejo de compartilhar essa descoberta com outras mulheres. Foi assim que nasceu um pequeno blog chamado Eu Sou Preciosa. Cada texto que eu escrevia nascia das minhas devocionais, das minhas perguntas e, principalmente, daquilo que Deus estava fazendo primeiro em minha própria vida. Eu nunca escrevi porque acreditava ter encontrado todas as respostas. Escrevia porque começava a perceber que muitas mulheres carregavam os mesmos sentimentos que um dia também habitaram meu coração.
Pouco a pouco, mulheres de diferentes cidades começaram a chegar. Algumas deixavam comentários. Outras escreviam longos e-mails compartilhando histórias muito parecidas com a minha. Quanto mais eu lia aqueles relatos, mais compreendia que Deus não estava restaurando apenas a minha vida. Ele também estava alcançando mulheres que precisavam descobrir quem eram aos Seus olhos. O blog cresceu, a comunidade aumentou e, algum tempo depois, nasceu a Revista Preciosa. Naquela época, eu imaginava que estava apenas escrevendo textos. Hoje percebo que Deus já estava formando uma comunidade muito antes de existir um clube, um projeto ou qualquer outro plano.
Foram anos muito especiais da minha caminhada. Servia na igreja, escrevia, conhecia pessoas incríveis e via Deus abrir portas que eu jamais teria coragem de abrir sozinha. Pela primeira vez, identidade e propósito caminhavam juntos. Eu sentia que havia encontrado o lugar onde Deus desejava que eu estivesse, e aquela mulher que um dia acreditou não ser suficiente começava, enfim, a descansar naquilo que Deus dizia a seu respeito.
Quando me perdi de vista
Em 2013, me casei acreditando que iniciava um dos capítulos mais felizes da minha vida. Entrei naquele relacionamento com esperança, disposição para construir uma família e o desejo sincero de viver tudo aquilo que sempre sonhei. Meu ex-esposo é um homem íntegro, respeitoso e por quem sempre terei gratidão. Durante muitos anos desenvolvemos amizade, parceria, menos um casamento. Orei, esperei, conversei e recomecei inúmeras vezes, acreditando que algo mudaria.
Mas, aos poucos, fui me calando. Sentia vergonha de admitir que minha realidade era diferente daquela que as pessoas imaginavam. Quanto menos eu falava sobre o que vivia, mais me isolava. E, quanto mais me isolava, mais distante me sentia daquela mulher que Deus havia começado a restaurar anos antes. Não perdi a fé. Nunca deixei de amar a Deus e crer em Jesus Cristo. Mas, em algum momento, deixei de enxergar com clareza aquilo que um dia Ele havia revelado ao meu coração.
Sem perceber, também fui me afastando do chamado que havia recebido. O blog deixou de ser atualizado, a Revista Preciosa chegou ao fim e aquele ministério que ocupava um lugar tão importante em minha vida passou a existir apenas como uma lembrança distante. Eu dizia a mim mesma que voltaria quando a vida estivesse mais organizada, quando as circunstâncias melhorassem ou quando me sentisse pronta outra vez. O tempo foi passando e, sem perceber, transformei esse "depois" em um lugar onde permaneci por muitos anos.
Meu corpo também refletia aquilo que acontecia dentro de mim. Meu peso chegou aos 153 quilos e, pela primeira vez, compreendi de forma muito profunda que corpo, alma e espírito caminham juntos. Quando uma dessas áreas adoece, todas as outras também sofrem as consequências. Durante muito tempo olhei para aqueles anos como um período perdido da minha história. Hoje consigo enxergá-los de outra maneira. Enquanto eu acreditava que Deus estava em silêncio, Ele continuava trabalhando em mim, mesmo quando eu não conseguia perceber.
Depois de muitas tentativas sinceras de reconstruir meu casamento, compreendi que havia chegado o momento de encerrá-lo. Foi uma decisão tomada com muito temor, oração e responsabilidade. Encerrar aquele ciclo significava recomeçar praticamente do zero. Eu não sabia exatamente como seria o futuro, mas havia dentro de mim uma convicção difícil de explicar. Mesmo sem enxergar o caminho, eu sabia que Deus ainda não havia terminado Sua obra em minha vida.
Pouco tempo depois, surgiu uma oportunidade de recomeçar em Curitiba. Parecia apenas uma mudança de cidade, mas hoje consigo enxergar que Deus estava conduzindo cada detalhe da minha história. Eu acreditava que estava apenas reconstruindo a vida. Ele, porém, preparava o caminho para que eu reencontrasse aquilo que um dia havia deixado para trás.
No primeiro dia de 2023, desembarquei em Curitiba acreditando que estava apenas começando uma nova etapa. Eu precisava recomeçar. Precisava reconstruir minha vida, minha carreira e aprender novamente a caminhar. Naquele momento, porém, eu ainda não imaginava que Deus estava preparando algo muito maior do que um recomeço.
Sem que eu soubesse, Ele estava conduzindo cada passo para que eu voltasse a encontrar não apenas o chamado que havia deixado para trás, mas também a mulher que um dia ouviu Deus chamá-la de Preciosa.
Quem Ele me chamou para ser
Chegar a Curitiba representava um recomeço em muitos sentidos. Eu deixava para trás uma história inteira, uma cidade onde vivi durante tantos anos e um ciclo que havia terminado de forma muito diferente daquilo que um dia imaginei. Apesar das incertezas, carregava uma paz difícil de explicar. Pela primeira vez em muito tempo, eu tinha a sensação de que estava exatamente onde Deus queria que eu estivesse, ainda que não conseguisse compreender tudo o que Ele estava fazendo. Aos poucos, fui encontrando meu lugar naquela nova cidade. Deus me deu um novo lar, um novo trabalho, novas amizades e até um novo casamento. Olhando de fora, parecia que minha vida finalmente voltava aos trilhos. Mas existia uma área que permanecia em silêncio. Enquanto tantas coisas eram restauradas ao meu redor, havia um chamado que continuava esperando pela minha resposta.
Voltei a exercer a Farmácia, iniciei minha especialização em Farmácia Clínica, retomei minha carreira como designer e comecei a construir um estúdio voltado para profissionais da saúde. Minha rotina era intensa e, olhando de fora, parecia que tudo finalmente estava se encaixando. Ainda assim, existia uma conversa que eu continuava adiando. Eu permanecia ocupada com muitos projetos, mas, no fundo do coração, sabia que Deus ainda me chamava para algo que eu insistia em deixar para depois.
Foi durante um culto aparentemente comum que Deus decidiu interromper esse silêncio. Uma irmã da igreja, que nunca havia me visto antes, aproximou-se para entregar uma palavra. Enquanto ela falava, tive a sensação de que Deus estava abrindo diante de mim capítulos da minha própria história que ninguém ali poderia conhecer. Ela mencionou situações muito específicas, falou sobre dores que eu nunca havia contado e, então, pronunciou uma frase que atravessou meu coração de uma forma que jamais esquecerei.
"Até quando você vai se esconder? Você é Preciosa! Chegou o tempo de parar de se esconder."
Naquele instante, foi como se os últimos quinze anos passassem diante dos meus olhos. A casa da minha avó. A Bíblia aberta em Provérbios 31. O blog. A Revista Preciosa. As mulheres que caminharam comigo. O chamado que, aos poucos, eu havia colocado em uma gaveta da minha vida. Deus não estava me mostrando um novo caminho. Estava me lembrando daquele que um dia eu mesma havia deixado para trás.
Saí daquele culto profundamente confrontada. Durante algum tempo, continuei dizendo a mim mesma que retomaria esse chamado quando chegasse um momento certo. Primeiro eu consolidaria meu estúdio. Depois terminaria minha alguns projetos. Mais tarde, quando tudo estivesse organizado, voltaria ao ministério. Eu acreditava que estava sendo prudente. Hoje percebo que apenas adiava uma conversa que Deus já havia iniciado.
Até que, em um sábado aparentemente comum, Ele escolheu novamente a simplicidade para transformar minha história. Meu esposo havia saído para trabalhar e eu me sentei diante do computador para finalizar uns projetos. Naquele exato momento, a internet caiu. Enquanto aguardava o sinal voltar, comecei a assistir um vídeo que meu esposo havia mandado, em seguida veio o segundo automaticamente, sobre propósito e chamado. Foi impossível não perceber que Deus estava conduzindo cada detalhe daquela manhã.
Mais uma vez tentei negociar com Ele. Enquanto a mensagem falava claramente comigo, no meu interior eu justificava: Assim que meu estúdio começar a prosperar e as coisas ficarem mais fáceis, eu vou retomar o meu chamado. A resposta veio imediatamente ao meu coração:
"Você está dividida entre aquilo que traz sustento para a sua vida e aquilo que dá sentido para ela."
Não consegui continuar assistindo aos vídeos. Peguei minha Bíblia, fechei a porta do quarto e comecei a orar. Já aos prantos, pedi perdão a Deus por estar ignorando tudo e todos que Ele estava usando para falar comigo. Ao mesmo tempo, eu continuava tentando me justificar e, a cada justificativa, Deus respondia por meio das Escrituras. Quando dizia que não era capaz, Ele me levava até Moisés. Quando dizia que sentia medo, mostrava Gideão. Aos poucos, fui compreendendo que Deus nunca esperou que Seus servos fossem suficientes. Ele apenas esperava que confiassem nEle.
Naquele sábado, chorei como há muito tempo não chorava. Não eram lágrimas de culpa, mas de rendição. Pela primeira vez compreendi que Deus nunca havia desistido do propósito que colocou em minha vida. Quem havia desistido era eu. O Preciosa nunca deixou de existir no coração de Deus. Apenas permaneceu em silêncio enquanto eu tentava construir outros caminhos.
Foi naquele dia que compreendi que identidade e chamado nunca caminharam separados. Em 2009, Deus restaurou a forma como eu me enxergava. Anos depois, em Curitiba, restaurou o chamado que havia colocado em minhas mãos. As duas experiências faziam parte da mesma história, porque somente uma mulher que conhece sua identidade consegue viver plenamente o propósito para o qual foi criada.
Hoje, quando olho para toda essa caminhada, percebo que Deus nunca teve pressa. Enquanto eu enxergava atrasos, Ele preparava fundamentos. Enquanto eu acreditava que alguns capítulos haviam sido desperdiçados, Ele escrevia uma história que só faria sentido quando vista por inteiro. O Preciosa Club não nasceu de uma ideia, de uma estratégia ou de um plano cuidadosamente elaborado. Nasceu da fidelidade de um Deus que nunca deixou de me lembrar quem eu era aos Seus olhos.
É por isso que, hoje, tenho orado por cada mulher que o Senhor vai trazer para nossa comunidade, mulheres que também desejam redescobrir a raridade que Deus colocou dentro delas, viver com confiança a identidade que receberam nEle e despertar o propósito para o qual foram criadas.
Talvez seja exatamente por isso que você chegou até aqui. Talvez Deus também esteja convidando você a lembrar quem você sempre foi aos olhos dEle.




