6 min de leitura
O que significa "feito de modo assombroso e admirável"?
O que o Salmo 139:14 revela sobre a maneira como Deus nos criou e sobre aquilo que ainda precisamos aprender a enxergar em nós mesmas.

O texto faz parte do Salmo 139:14 (NVI):
"Eu te louvo porque me fizeste de modo assombroso e admirável. As tuas obras são maravilhosas! Sei disso muito bem."
Davi escreve esse salmo a partir de uma consciência muito profunda de quem Deus é e de como Ele o conhece. Deus conhece seus pensamentos, seus caminhos, suas palavras antes mesmo que elas cheguem à sua boca. Conhece Davi desde o ventre e conhece também todos os seus dias.
É nesse contexto que ele diz: “Eu te louvo porque me fizeste de modo assombroso e admirável.”
Não é apenas uma declaração sobre o corpo ou sobre a aparência. Davi está olhando para a própria existência e reconhecendo nela a obra de um Criador.
E talvez seja aí que essa passagem comece a falar com a gente de uma maneira diferente. Quando você olha para si mesma, consegue reconhecer a assinatura de Deus na mulher que vê?
"Feito de modo assombroso" (Reverência e temor)
A palavra traduzida como “assombroso” está relacionada, no hebraico, à ideia de temor, reverência e espanto diante de algo grandioso. É aquele tipo de admiração que nos faz parar por um instante diante de alguma coisa que parece maior do que conseguimos explicar.
É o que sentimos diante de uma paisagem que nos deixa sem palavras, da imensidão do mar ou mesmo ao segurar um bebê recém-nascido. Existe algo ali que nos faz simplesmente contemplar.
Davi olha para si mesmo dessa maneira. Ele reconhece que a sua existência não é fruto do acaso. Há um Criador por trás dela.
E isso é importante porque, muitas vezes, nós fazemos justamente o contrário. Olhamos para nós mesmas e enxergamos primeiro aquilo que não gostamos. O corpo que mudou, a característica que gostaríamos de esconder, a personalidade que julgamos inadequada, os erros da nossa história.
Aprendemos a observar a nós mesmas procurando o que precisa ser consertado. Mas Davi estava olhando para outra coisa: para a obra e para aquele que a criou.
O mesmo Deus que conhecia Davi antes mesmo de ele nascer é o Deus que conhece você. Antes dos rótulos que recebeu, das comparações que aprendeu a fazer e das inseguranças que foram crescendo ao longo da vida, Deus já conhecia você por inteiro.
"Feito de modo admirável" (Distinção e singularidade)
A segunda expressão reforça essa ideia. A palavra hebraica utilizada no versículo está relacionada àquilo que é maravilhoso, extraordinário e que ultrapassa o comum.
Ser feito de modo admirável significa reconhecer que você não é resultado de uma produção em série. Existe uma singularidade naquilo que Deus criou.
E isso não quer dizer que você seja melhor do que ninguém. Também não significa que tudo em você precise ser preservado exatamente como está. Existem coisas que Deus transforma em nós ao longo da vida. Existem feridas que precisam de cura, pensamentos que precisam ser renovados, comportamentos que precisam mudar.
A questão é outra: transformação não significa que Deus tenha errado na criação.
Você pode amadurecer sem precisar rejeitar quem é. Pode mudar sem acreditar que precisa se tornar outra pessoa para finalmente ter valor.
É como uma obra que ainda está sendo trabalhada, mas que continua carregando a assinatura de quem a criou.
Talvez seja por isso que a ideia de assinatura seja tão bonita aqui. Quando olhamos para uma obra de arte, não vemos apenas aquilo que foi produzido. Conseguimos perceber escolhas, detalhes e características que revelam quem esteve por trás dela.
Com a gente também existe uma autoria.
Fomos criados à imagem de Deus (Gênesis 1:27). Fomos feitos por Ele e, como diz Efésios 2:10, somos criação de Deus, criados em Cristo Jesus para boas obras que Ele preparou para nós.
Nossa identidade, portanto, não começa na opinião das pessoas. Não começa na aparência, no que conquistamos ou no quanto conseguimos agradar. Começa naquele que nos criou.
Talvez você esteja olhando para a obra sem enxergar a assinatura
Pense em quantas vezes você já olhou para si mesma procurando defeitos. Talvez você saiba exatamente o que gostaria de mudar no seu corpo, carregue até hoje palavras que alguém disse sobre você há muitos anos ou tenha se acostumado tanto a se comparar que já nem perceba quando começa a diminuir a si mesma. Aos poucos, o olhar para o espelho deixa de ser apenas um olhar e passa a ser uma busca por tudo aquilo que, na nossa opinião, ainda não está bom.
Mas e se aprendêssemos a olhar de outra maneira? Isso não significa ignorar aquilo que precisa ser transformado, nem fingir que não existem aspectos da nossa vida que precisam amadurecer. Significa apenas não permitir que aquilo que ainda precisa mudar seja tudo o que conseguimos enxergar quando olhamos para nós mesmas.
Reconhecer a assinatura de Deus em nós é aprender a perceber, no conjunto de quem somos, as marcas daquele que nos criou. Elas estão nos dons que Ele colocou em nós, na maneira particular como enxergamos o mundo, naquilo que desperta nossa sensibilidade e na nossa capacidade de cuidar, criar, ensinar, acolher ou liderar. Estão também na história que vivemos e até naquilo que Deus ainda pode fazer através dela. Nem tudo precisa ser explicado para ser reconhecido. Algumas coisas simplesmente revelam que fomos feitas de maneira única.
O Salmo 139 nos convida a parar de olhar para nós mesmas apenas através das nossas inseguranças, comparações e rótulos e começar a olhar para a obra com mais atenção. Afinal, uma obra pode ser aperfeiçoada sem deixar de carregar a assinatura de quem a criou.
Então eu deixo uma pergunta para você: quando você olha para si mesma, consegue reconhecer uma obra admirável de Deus ou ainda acredita que Ele errou em algum detalhe quando criou você?
Talvez a resposta para essa pergunta revele muito mais sobre a maneira como você aprendeu a se enxergar do que sobre quem você realmente é.
Vamos orar?
“Senhor, eu quero aprender a me enxergar como Tu me vês.
Muitas vezes, eu olhei para mim através da comparação, das minhas inseguranças e das palavras que ouvi ao longo da vida. Acabei acreditando que precisava ser diferente para ter valor, como se houvesse algo em mim que precisasse ser consertado antes que eu pudesse me sentir verdadeiramente amada.
Hoje, eu quero lembrar que fui criada por Ti. Que existe intenção naquilo que Tu fizeste e que minha identidade não precisa ser construída a partir daquilo que as pessoas pensam sobre mim.
Ensina-me a reconhecer a Tua obra em mim, inclusive nas partes que ainda não consigo compreender ou aceitar. Dá-me sabedoria para distinguir aquilo que precisa ser transformado daquilo que eu apenas aprendi a rejeitar em mim mesma.
Que eu não viva tentando me encaixar no que o mundo espera de mim, mas aprenda, cada dia mais, a viver a partir de quem Tu dizes que eu sou.
Em nome de Jesus, amém.”



